PÉ COM PÉ

Caminho difícil

Mulheres que calçam numeração abaixo de 33 e acima de 40 têm poucas opções para encontrar sapatos adequados
23/03/2014 - 05h00
Foto: Dominique Torquato/AAN
Dominique Torquato/AAN
Maria Olívia Rossoni: dificulgade para encontrarl sapato alto de número 32 levou a criar a mar Ftérna

Até pouco tempo, a empresária Maria Olívia Rossoni penava para encontrar um calçado adequado, sobretudo se a ocasião “estampa fina” demandasse salto alto, escarpins ou afins. Casamento, por exemplo. O próprio, inclusive. “O vestido foi mais fácil de resolver, mas foi um transtorno arrumar um sapato que me agradasse. Se encomendasse um sob medida, teria que pagar cerca de R$ 1 mil pelo par. Acabei usando uma sandália branca de salto baixinho. Foi uma frustração”, relata. Isso porque ela foge do padrão da maioria das mulheres brasileiras: mede 1,50 metro e calça número 32.
 

Depois de viver na França por alguns anos (e sofrer em dobro para se calçar por lá, uma vez que as formas pareciam maiores), voltou a Campinas decidida a empreender com a Ftérna, loja virtual de sapatos femininos voltada ao público que calça do número 30 ao 34, ativa desde 2011. O e-commerce possibilitou que clientes de todo o Brasil e até de Portugal (cerca de 1,2 mil mulheres) encontrassem seus modelos e finalizassem a compra em meia dúzia de cliques. Quem desejar pode ainda agendar visita ao show room, que funciona no distrito de Sousas, e tirar dúvidas.
 

xAté aqui, já foram desenvolvidos mais de 500 modelos, quantia incrementada constantemente em função da demanda do público por novidades. Olívia conta que eles são criados em parceria com um pool restrito de fornecedores exclusivos – a Ftérna arca com os custos de produção dos fabricantes e sugere novidades ao design dos modelos, conforme o caso. Por isso, em relação ao preço dos calçados convencionais, nota-se uma pequena diferença para mais, no entanto, nada que intimide a compra – ano passado, as vendas foram 20% maiores do que as de 2012 e a expectativa para este ano é de mais crescimento.
 

“Tenho clientes de 60 anos que nunca tinham usado salto antes de conhecer a loja. Muitas dizem que se sentiam incompletas e menos mulheres, sem feminilidade. Algumas não iam a eventos sociais por não terem o que calçar. Sinto gratidão nas palavras delas”, declara Olívia. Isso fica claro na fanpage da marca no Facebook. Com a autoestima renovada, as compradoras dividem histórias e incentivos.
 
 
De salto alto

Ao invés do suplício imposto pelo uso de modelos infantis ou tamanhos maiores, saltos altos e vaidade em ascensão. “Já comprei alguns pares do meu tamanho, mas ainda me pego olhando as vitrines em busca dos modelos infantis. Virou hábito. Antes, chegava a sair de uma loja aos prantos por me sentir excluída. Por querer calçar um número 33 ou 34, desenvolvi joanete. Geralmente colocava algodão, duas meias e uma polaina, se no inverno, para me adaptar”, relata a estudante de pedagogia Cláudia Gaiotti, que tem 1,46 metro e calça 31.

Essas moças relatam, inclusive, que sofreram bullying nalgum momento da vida por conta da estatura. “Nasci prematura, sempre fui baixinha e era ‘zoada’ na escola por isso. Na formatura do colégio, tive de mandar um sapateiro reformar uma sandália 33, que não ficou boa. Sempre quis usar salto alto, mas era impossível. Hoje, uso salto para trabalhar, passear e até andar de ônibus”, partilha a vendedora sorocabana Nathalia Corrêa, de 22 anos, 1,50 metro e pezinhos 31.

Foto: Dominique Torquato/AAN
Dominique Torquato/AAN
Desde 2011, já foram desenvolvidos mais de 500 modelos, número que cresce constantemente em função da demanda do público por novidades

40+ Pioneira

Se encontrar numerações pequenas já é um transtorno para parte da população adulta, o que dizer de quem calça números superiores a 39 ou 40? No vídeo comemorativo (http://goo.gl/pE34o5) dos 75 anos da paulistana Casa Eurico, veterana no País entre as lojas voltadas a esse público (foi fundada em 1938 pela família Rosenthal, de imigrantes alemães), fica claro que é preciso uma dose generosa de bom humor para driblar certas situações. Nos depoimentos, os homens relatam que faltam modelos no mercado, sobretudo sociais. As mulheres concordam e destacam o agravante: elas têm de recorrer aos calçados masculinos, mesmo que os alvos da compra sejam chinelos ou tênis.
 

“Os tipos de calçados femininos mais procurados são sandálias rasteiras e sapatilhas devido ao fato de que a maioria das clientes prefere modelos sem salto. Já entre os homens, a maior procura é por estilos esportivos, como sapatênis e tênis”, destaca Cláudia Rosenthal, diretora de comunicação da marca e neta dos fundadores. O mix de produtos atende a uma carteira de mais de 35 mil consumidores dos mais diversos perfis, que compram tanto nas lojas físicas (são dois endereços em São Paulo) quanto pelo site ou telefone. De novo, o comércio virtual salva parte da clientela.
 
Foto: Dominique Torquato/AAN
Dominique Torquato/AAN
Criação de modelos segue as tendências da moda e confere ar adulto e atualizado às mulheres com pezinhos de boneca

E, tal ocorre com a marca campineira Ftérna, existe uma parceria entre fabricantes e a Eurico para a produção de calçados exclusivos. São cerca de 150 fornecedores fixos, estabelecidos, principalmente, no Estado do Rio Grande do Sul e em Franca, no Interior de São Paulo. Em média, paga-se 20% mais por um modelo GG.
 
 
“Existem no mercado centenas de empresas que se dispõem a investir em tamanhos grandes. Então, temos sido mais exigentes na escolha dos parceiros. E enquanto não encontrarmos um bom número de fabricantes que possam nos atender com produtos mais baratos sem abrir mão da qualidade, preferimos adiar o projeto de inaugurar uma loja mais popular”, salienta Cláudia.
 
 
 
Foto: Dominique Torquato/AAN
Dominique Torquato/AAN
Cláudia Rosenthal, da Casa Eurico, especializada em numeração alta: "Os tipos de calçados femininos mais procurados são sandálias rasteiras e sapatilhas"
Cré com cré

“Com a forte tendência de crescimento das vendas on-line, é muito importante que os clientes estejam seguros de que o número que estão comprando é mesmo o que precisam. Procuramos incluir no site, junto a cada produto, todas as informações relevantes sobre ele, inclusive uma orientação quanto ao tamanho da forma (quando é especialmente grande ou pequena). Mas nem sempre o interessado se dá ao trabalho de ler e o resultado é a frustração de receber em casa um calçado que não serve. Fora isso, nossas compras seriam muito mais acertadas, pois sempre fazemos o pedido de uma grade básica, mas é comum no decorrer da coleção nos depararmos com uma sobra grande de uma numeração e a falta de outra, devido às diferenças de formas”, observa a diretora de comunicação da Casa Eurico, Cláudia Rosenthal.


Delgados, médios e robustos
 
 
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), é comum encontrarmos no País calçados cuja numeração vai de 34 a 45, sendo que a maioria das mulheres calça entre 35 e 38, e a maioria dos homens, entre 39 e 42.
  
 
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Fundada pela família de imigrantes alemães, Rosenthal, Casa Eurico é pioneira na confecção de calçados acima de 40
Aluísio Ávila, coordenador do Laboratório de Biomecânica do instituto, explica que a antropometria leva em conta a existência de alguns padrões, como pés delgados, médios e robustos. “As diferenças entre eles são grandes. A medida usada pela indústria calçadista é o perímetro da cabeça dos metatarsos. No feminino, para a numeração 36, encontramos a diferença de 70 milimetros entre os perímetros do pé mais delgado e o mais robusto. Para o masculino, na numeração 40, encontramos a diferença entre o pé mais delgado e o mais robusto de 90 milimetros para os perímetros da cabeça dos metatarsos”. A numeração brasileira, porém, leva em conta apenas o comprimento dos pés.
 

Outra parte do problema em redefinir o padrão brasileiro, pontua Ávila, é a resistência de parte dos lojistas em manter em estoque as numerações pouco procuradas. “E, o que é pior, eles não querem ouvir falar em padrões diferenciados. Algumas de nossas fábricas de calçados fazem até cinco perfis para cada número. São os do tipo exportação”, observa. Seria ideal que as indústrias tivessem ao menos esses três perfis diferentes de pés para cada número de calçado. Nos Estados Unidos, segundo Ávila, já funciona assim.

Serviço:
Ftérna Calçados - www.fterna.com.br
Casa Eurico - www.eurico.com.br



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