Cutelaria

A arte das lâminas

Em alta: fazer facas transforma-se, a cada dia, em um desafio para profissionais especializados; popularização da gastronomia fez com que ofício alcançasse novo grau de importância
04/11/2012 - 05h00
Foto: Augusto de Paiva/AAN
Augusto de Paiva/AAN
Marcelo Pimentel, cuteleiro e arqueiro: "as facas são ferramentas indispensáveis à humanidade"

Transformar um bruto pedaço de aço sem forma, em instrumento afiado, utilitário ou decorativo: eis o prazer dos cuteleiros. “A cutelaria está para os homens assim como a joalheria está para as mulheres. Portanto, é considerada arte, um mercado disputado por colecionadores e amantes das lâminas”, define Milton Hoffmann, presidente da Sociedade Brasileira dos Cuteleiros (SBC), com sede em Brasília (DF).

 

Muito embora a “popularização” da gastronomia tenha elevado o ofício (cuteleiro) a alto posto – inúmeros chefs e sushimens costumam encomendar facas adequadas à própria empunhadura e usos –, Hoffmann considera que, no Brasil, o mercado ainda é incipiente. “Mas caminha para o crescimento expressivo, a ponto de revelar-se um novo nicho.”



Foto: Cutelaria Carbo
Cutelaria Carbo
Cutelaria Carbo
Periodicamente, cuteleiros nacionais e internacionais se reúnem para trocar ideias sobre novas técnicas e materiais – uma das reuniões mais recentes é o Salão Paulista de Cutelaria programado para ocorrer entre os dias 9 e 11 de novembro, em São Paulo, no Centro Cultural Brasil Hokaido. E há cursos pululando por aí.

Por enquanto, Brasília é a única cidade a contar com o curso de Cutelaria Artesanal, em ambiente acadêmico, destaque na América Latina e ministrado por cuteleiros filiados a SBC. “Criado em 2005, é hoje um dos mais disputados da Escola de Extensão da Universidade de Brasília, que recebe alunos do Brasil inteiro e até do exterior. Em breve, inauguraremos mais um programa na Universidade de Campina Grande, na Paraíba”, adianta Hoffmann à Metrópole.


A paixão do cuteleiro por essa arte surgiu na infância, instintivamente, e tem relação com a cultura dos Cutelaria Damaascendentes europeus, alguns deles ferreiros na Alemanha e Polônia. “Fascinavam-me as facas de meu avô paterno, principalmente quando íamos pescar no Rio da Várzea, em Quitandinha, município próximo a Curitiba. Aprendi o ofício com vários ferreiros e principalmente com o senhor Miguel Reis, famoso fabricante de navalhas e tesouras da cidade de Goiânia. Atualmente, meus grandes professores são meus colegas cuteleiros, pois a troca de informações é fundamental no meio para o crescimento técnico do grupo”, decreta.


Pensamento assemelhado tem o empresário e arqueiro Marcelo Pimentel, que também descobriu a cutelaria na infância, por influência do pai (Jorge Pimentel, que fora um grande caçador de perdizes). Tornou-se caçador – é bom que se frise que tem registro, só se vale de arco composto (arma branca) e, em território nacional, segue as regras estabelecidas pelo Ibama, já que a caça é proibida no País, à exceção do Estado do Rio Grande do Sul, em que javalis são considerados espécie de praga das Américas. “Por conta do interesse, aprendi a confeccionar facas para uso pessoal com o cuteleiro Henrique Carvalho, de Bragança Paulista”, lembra.


Cutelaria HunterE segurou as contas de casa durante um tempo confeccionando instrumentos de corte, sobretudo de peças utilitárias. “Mas algumas facas, especialmente as do tipo aço Damasco (decorativas, geralmente), cuja forja mescla metais e onde o corpo da faca ganha “desenhos” únicos, são muito valorizadas. O tempo de feitura, claro, é bem maior”, explica o cuteleiro, que hoje só desenvolve peças sob encomenda e afia o hobby na oficina rústica e equipada, montada na casa-fazenda, em Bragança Paulista.


Pelas contas do artesão, ao longo dos últimos sete anos, mais de 700 facas, espadas e afins, a maioria utilitárias, já se encaixaram na empunhadura de algum cozinheiro (Ana Maria Braga e Márcio Moreira, por exemplo), sushiman, caçador, pescador, praticante de artes marciais ou mero entusiasta.

 

Como se faz

Pimentel explica que a feitura de instrumentos de corte, grosso modo, passa por quatro etapas. Com o metal em mãos (aço carbono, aço inox 420 ou 440 C ou cromo vanadium, preferidos por ele e que diferenciam em dureza e resistência/aplicações), é preciso aquecê-lo e trabalhar na forja.

O forno chega a 1200 ºC e há que se manejar o martelo e a bigorna com muita habilidade. “Torce-se e dobra-se o metal nessa etapa, malha-se o ferro, como se diz. Quando está preparando alguma peça de Damasco, é nessa etapa que vai-se caldeando um metal a outro, lentamente. Por isso o aspecto fica claro nuns pontos e escuro em outros”, explica.


Depois, lixa-se a peça com cautela para que se desbaste o metal e obtenha-se o fio. “Desenvolvi uma lixadeira específica para cutelaria. As que estão disponíveis no mercado dão mais trabalho”, observa Pimentel. Moldada a faca, passa-se a peça à têmpera para tratamento térmico controlado – geralmente mergulha-se em óleo fino ou sebo de boi aquecidos ou não. O processo pode ter desdobramentos como o revestimento.


Depois de polida, a peça ganha cabo e acabamentos que podem variar muito. E aí caímos numa seara de preconceitos, pois madeiras nobres, ossos e chifres de animais, quando empregados (e apesar de deixarem o trabalho mais vistoso e caro) resvalam em questões protecionistas. “Pessoalmente, prefiro utilizar o jacarandá da Bahia, ébano africano, gonçalo-alves, todos materiais de demolição. Mas já há materiais sustentáveis, plásticos que imitam madeira e que, se bem acabados, ficam muito bonitos. Como costumo viajar bastante para caçar, aproveito encontros com cuteleiros de todo o mundo para comprar ossos e chifres. Dependendo da utilidade e dos materiais empregados, o preço de uma faca pode variar muito. Em média, uma faca artesanal custa R$ 500”, aponta.


Hoffmann lembra que as empunhaduras das facas podem ser feitas, inclusive, com marfim de mamute, pedras e metais preciosos. “Existem empresas especializadas na prospecção de fósseis desses animais na Sibéria que os localizam e os descongelam no solo para retirar os marfins.

Diga-se de passagem, são de comercialização legalizada visto o animal já ter sido extinto. Diferentemente, o marfim de elefante tem comércio proibido desde 1979, tendo em vista o risco de extinção da espécie. Particularmente, prefiro utilizar as madeiras exóticas”, aponta.

Entre os cuteleiros nacionais de vulto, a SBC destaca Rodrigo Sfreddo, Luciano Dornelles, Gustavo Vilar, Ikoma, Ricardo e Roberto Lala, Jacinto Melo, Ricardo Vilar e Francisco José Ferrari, que colaborou nesta reportagem.



Comentários(1)

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  • Paulo R. M. Teixeira: (12/05 as 09h51)
    Gostaria de conhecer melhor o trabalho de cutelaria.


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