ALERGIA

A outra face da beleza

Especialistas advertem: muitas vezes, os cosméticos se convertem em riscos à saúde das pessoas; é preciso estar atento a sintomas como vermelhidão, ardor, coceira e inchaço
11/11/2012 - 05h00

Região dos olhos merece muita atenção

Tomar banho, lavar e pintar os cabelos, hidratar e proteger a pele, maquiar-se. Livremente vendidos em farmácias, lojas e supermercados, cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal fazem parte da vida de todos.

Mas imagine se, em vez do efeito de cuidado pretendido, o resultado for vermelhidão, inchaço, ardor, coceira e até mesmo bolhas, queimaduras e queda de cabelo.

Como uma outra face da beleza, esses produtos podem causar reações diversas e se converterem em riscos à saúde.

Em contato direto com a pele, geralmente durante longos períodos, alguns componentes são capazes de produzir em determinadas pessoas fenômenos como irritações e alergias.

“A irritação cutânea é aquela que pode ocorrer desde o primeiro contato com o agente, sem envolvimento do sistema imunológico, ou seja, sem formação de anticorpos para isso”, explica o chefe do Serviço de Dermatologia
do Hospital e Maternidade Celso Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Adilson Costa (esq.) Adilson Costa

Segundo o médico, na alergia, ao contrário da irritação, o sistema imunológico reage à substância, que considera estranha ao organismo.

No entanto, para que o corpo desenvolva essa reação é preciso que a pessoa se exponha várias vezes a um determinado agente. “Por tal razão, a alergia nunca aparece em um primeiro contato com uma substância”, defende.

De acordo com a dermatologista e professora do Ambulatório de Cosmiatria do Serviço de Dermatologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiza Pitassi, as reações alérgicas, em algumas situações, podem acontecer logo no primeiro contato ou após exposição continuada a uma determinada substância do cosmético.

“A alergia é uma reação imunológica de sensibilização frente a uma determinada substância. A sensibilização pode ser uma reação de efeito imediato (de contato) ou tardio (hipersensibilidade)”, explica.

A reação alérgica tem a característica de aparecer em outras áreas além daquela na qual foi aplicado o produto e pode se tornar grave e persistente se o uso for continuado. 

Foto: Luiza Pitassi
Luiza Pitassi
Luiza Pitassi


Segundo a médica da Unicamp, as chamadas dermatites de contato são as reações mais comuns provocadas pelos cosméticos. “A dermatite de contato é causada por agentes externos que, em contato com a pele, desencadeiam uma reação inflamatória”, explica Luiza. Segundo a médica, tais inflamações podem ocorrer por irritação, alergia ou até mesmo por fotossensibilização.

Na reação por irritação, que corresponde a 80% dos casos, de acordo com a dermatologista, os sintomas são queimação, coceira e sensação de pinicação e se restringem à área de contato com o produto. Se a substância irritante for forte, as reações surgem algumas horas após o contato, mas se ela for fraca, os sintomas vão aparecer apenas após vários dias.

A dermatite de contato alérgica, segundo a médica, é o tipo mais comum de reação alérgica causada pelos cosméticos, geralmente desencadeada por aqueles aplicados na face, cabelos, unhas e nas áreas dos olhos. Os sintomas envolvem a formação de edemas, eritemas, secreção e crostas, em outras áreas além daquela em que o produto foi aplicado.

Os pacientes chegam ao consultório, de acordo com Luiza, com as queixas de irritação, vermelhidão, queimaduras, visão embaçada, hipersensibilidade e até queda de cabelo. “A dermatite de contato alérgica é causada pela reação de hipersensibilidade mediada por células e requer a ativação do sistema imune, ou seja, em primeiro lugar a pessoa tem que se sensibilizar para depois se tornar alérgica.


A fase de sensibilização dura ao redor de 10 a 15 dias, e, uma vez sensibilizado, o segundo contato com o mesmo antígeno levará a uma dermatite de contato alérgica ao redor de 24 a 48 horas”, esclarece Luiza. Já as dermatites por fotossensibilização são aquelas causadas pela exposição de algumas substâncias, em contato com a pele, à luz.


Os vilões
 
Pele requer cuidados 
As substâncias no topo da lista das causadoras de reações adversas presentes em cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal, de acordo com os especialistas, são as fragrâncias, conservantes e corantes. “Os ingredientes dos cosméticos que causam reações dermatológicas de irritabilidade e sensibilização são denominados substâncias alergênicas”, explica a médica da Unicamp.


As principais, segundo ela, são os derivados de petróleo como o óleo mineral e o propilenoglicol, a lanolina, os parabenos, os conservantes liberadores de formol, os corantes artificiais e perfumes. Entre os conservantes, o formaldeído, utilizado em produtos como os alisantes para cabelos, pode trazer risco à saúde se for usado em concentrações maiores do que as permitidas pela Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária).

“O formaldeído é considerado cancerígeno pala OMS (Organização Mundial de Saúde), sendo que, quando absorvido pelo organismo por inalação e, principalmente, pela exposição prolongada, apresenta como risco o aparecimento de câncer na boca, nas narinas, no pulmão e no sangue”, afirma a médica.


É preciso prestar atenção, ainda, segundo Luiza, aos parabenos, um dos grupos de conservantes mais utilizados nos cosméticos brasileiros e presentes, inclusive, em linhas infantis. “Estudos revelam que os parabenos contribuem para o desenvolvimento do câncer em pessoas predispostas e outros trazem evidências de que afetam o sistema hormonal.

Aplicados na pele, os parabenos e seus metabólitos são absorvidos, conjugados e excretados na urina e na bile, podendo ser quantificados no sangue e na urina humana”, alerta a dermatologista da Unicamp. A médica ressalta que, no entanto, são necessários mais estudos para comprovar a ação desses conservantes nos hormônios. Na Europa, segundo ela, os parabenos já têm o uso proibido.


Cuidado com eles

Alguns produtos merecem atenção especial. Os cosméticos com ação antienvelhecimento, de uso facial, são os campeões em queixas de reações adversas pelos pacientes, segundo o médico da PUC-Campinas.

Delineador


De acordo com a profissional da Unicamp, os produtos para o cuidado da pele como cremes, loções e leite para hidratação e limpeza são os responsáveis por mais da metade dos casos, seguidos por produtos para o cuidado dos cabelos, agentes de limpeza, cosméticos para os olhos, cosméticos para as unhas, perfumes, desodorantes e antitranspirantes e maquiagem. A face e as pálpebras são os locais onde ocorre a maior parte das reações - cerca de 50%.

De acordo com Luiza, a tintura de cabelo é um dos produtos que podem causar alergias por conter substâncias como a parafenilienidiamina, o sulfato de níquel e a resorcina. Esta última também pode aparecer em batons, loções, protetores solares e tônicos capilares e para acne. Na hora de se maquiar, cuidado com substâncias como a eosina, corante usado em batons, a anilina ou fenilamina, presente nos lápis para contorno dos olhos e sobrancelhas (e também nos condicionadores para os cabelos) e a lanolina, cera produzida pelas glândulas sebáceas de carneiros e encontrada em bases, pós, removedores de maquiagem e autobronzeadores, que podem transformar os aliados da beleza em inimigos. O bálsamo do Peru, usado em fragrâncias, é o vilão responsável pelas reações causadas pelos perfumes.


Esmaltes, os vilões

Esmalte: pálpebras, rosto, pescoço e mãos podem ser afetados

Um dos itens indispensáveis no ritual de beleza de toda mulher, os esmaltes também podem causar problemas que vão além da ponta dos dedos. A resina tonsilamina/formaldeído, presente nos esmaltes de unha, é a substância que mais dá resultado positivo entre as utilizadas nos testes de contato para identificar o agente causador das dermatites, segundo a médica da Unicamp, Luiza Pitassi.

O ingrediente pode causar eczemas, inchaço, vermelhidão e coceira em regiões como as pálpebras, pescoço, rosto e mãos. A alternativa é utilizar os esmaltes hipoalergênicos ou marcas que retiraram de sua composição os ingredientes que podem causar as reações. Algumas marcas nacionais já investiram em linhas especiais para quem não pode usar os esmaltes convencionais.

A Impala possui uma linha hipoalergênica sem tolueno, formaldeído e parabenos e a da Risqué não têm tolueno e formaldeído. Outras marcas tiraram alguns ingredientes de sua composição como a Colorama, cujos esmaltes com cor não possuem tolueno nem formaldeído, (exceto a linha de tratamento e a Única Camada), O Boticário, cuja linha de esmaltes também não tem adição desses dois ingredientes e a Ludurana, cujos produtos para unhas não contém dibutilftalato, tolueno e formaldeído. No hall das importadas, fica até mais fácil encontrar opções para as alérgicas. Marcas como Boujois e Revlon são livres de formaldeído e tolueno e Chanel, Ciatè e Dior não contém tolueno, formaldeído, dibutilftalato e cânfora.


Saiba o que fazer com a intolerância

Alguns cuidados simples podem evitar que o sonho de ter uma pele mais bela se transforme em pesadelo. Um deles, segundo os especialistas, é prestar atenção ao rótulo dos produtos na hora da compra. Uma das garantias de segurança é adquirir apenas aqueles que possuem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pode ser constatado pelo número impresso na embalagem.

“Quando o produto não é registrado e sua composição não foi avaliada, este pode conter substâncias proibidas ou de uso restrito em condições e concentrações inadequadas ou não permitidas, o que pode acarretar sérios riscos à saúde”, explica a dermatologista Luiza.


As pessoas que já têm intolerância comprovada a algum dos componentes precisam ler atentamente os rótulos para evitar comprar produtos que contenham esses ingredientes. Para confirmar a intolerância, é preciso fazer um exame no qual 40 substâncias potencialmente alergênicas são colocadas em contato com a pele durante 48 horas para verificar as possíveis reações.


Outra das orientações é usar produtos descritos como dermatologicamente testados ou hipoalergênicos. “Isso significa que foram testados sob o controle de médicos dermatologistas, o que reduz o risco de surgimento de alergia”, completa Luiza.


No entanto, mesmo esses produtos podem causar reações indesejadas em algumas pessoas. Por isso é importante que, antes de utilizá-los em grandes áreas do corpo ou rosto, se faça o chamado teste da sensibilidade: aplicar o produto na região do antebraço por cerca de cinco dias e observar se aparece alguma reação.


Em algumas pessoas, segundo Luiza, a sensibilidade aos produtos se desenvolve com mais facilidade. Entre elas estão as que já possuem outras doenças alérgicas, como a dermatite atópica, uma inflamação crônica da pele que provoca lesões avermelhadas e coceira, e as que têm a pele extremamente seca. Quem tem pele sensível, deve redobrar os cuidados. “É importante evitar o uso de sabonetes alcalinos, loções alcoólicas, produtos abrasivos, ácidos de frutas (AHA), tensoativos e produtos perfumados”, ressalta a médica da Unicamp. Para as crianças, é preciso utilizar apenas produtos descritos como infantis.


E até mesmo a exposição ao sol, à poluição e ao ar condicionado e as condições de tratamento da água podem aumentar as chances de desenvolver as reações. “Os fatores externos também podem desencadear ou agravar a sensibilidade da pele, como as variações climáticas até os hábitos de higiene excessivos ou inadequados”, alerta a dermatologista. Cuidado, portanto, com o excesso de banhos, com a água muito quente e ao barbear, depilar e esfoliar a pele.



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